sábado, 26 de maio de 2012

Greve dos Rodoviários em São Luís: Um pequeno exemplo da grandeza que tem a solidariedade de Classe



 Sempre que a classe trabalhadora luta para garantir ou conquistar direitos inevitavelmente se choca com os privilégios da burguesia, e essa é a contradição fundamental do mundo capitalista. Nossos interesses e os deles são inconciliáveis. Por esse motivo, e simplesmente por ele, moral, ética e solidariedade não podem ser entendidos como conceitos universais. O valor desses conceitos tem claríssimas fronteiras de classes. Nossa moral e nossa ética só tem valor no universo político de nossa própria classe, o mesmo serve para a burguesia. A greve dos Rodoviários é uma pequena amostra do que pretendemos expressar aqui.

                    O nível de solidariedade da burguesia é impressionante. Enoja constatar como o judiciário e os patrões caminham de mãos dadas contra os trabalhadores. Por um lado, a presidenta do TRT (MA) juíza Ilka Esdra Silva Araújo, julgou a ilegalidade da greve, depois mandou multar o sindicato da categoria, seguido da ameaça de prisão de seus diretores, por outro lado, os patrões, amparados por uma determinação da mesma juíza, ameaça demitir os trabalhadores. Em frente às empresas filas enormes são formadas por trabalhadores desempregados para ocupar o lugar dos grevistas. Qualquer pessoa com o mínimo de senso crítico diria “isso é antiético, é amoral, um absurdo” nós dizemos não, não, essa é natureza moral e ética da burguesia em qualquer época e lugar do mundo para inviabilizar ou quebrar laços de solidariedade entre os membros das classes populares.  Vejamos o que história nos ensina a esse respeito.
               A existência dos quilombos, por exemplo, só era possível devido à articulação dos quilombolas com diversos setores marginalizados da sociedade colonial como os escravos das senzalas, fugitivos do serviço militar, índios, mulatos marginalizados, bandoleiros e guerrilheiros das estradas. Contra isso, na investida para destruir Palmares, o sanguinário Domingos Jorge Velho exigiu que o governador de Pernambuco, Souto- Maior, assinasse a seguinte cláusula “o sr. Governador dá poder ao coronel Domingo Jorge Velho para mandar prender a qualquer morador destas capitanias, que com evidências lhe constatar socorre os negros de Palmares (....)”.
                No Maranhão, quando a Insurreição da Balaiada (1938-1841) saia do controle das frações das elites, as mesmas deixaram suas diferenças de lado e se uniram para evitar sua haitianização. Caxias, para isolar Negro Cosme e seu exército de três mil homens, propôs anistiar todos aos balaios brancos e mestiços que se lançasse nas floretas a captura de quilombolas e ex-escravos.
                  Na Confederação do Equador do Nordeste de 1824 ocorreu o mesmo. Após algumas vitórias os “revolucionários” resolveram recuar no propósito de libertar os escravos, isso mesmo, dos escravos que se encontravam na linha de frente dessa guerra. Para desfazer rumores lançaram uma carta se dirigindo da seguinte forma a temorosa classe senhorial “(...) Patriotas: vossa propriedade ainda as mais opugnantes ao ideal de justiça serão sagrados; o governo porá meios de diminuir o mal, não o fará pela força. Credes na palavra do governador, ela é inviolável, ela é santa”
                   Quando os holandeses invadiram o nordeste brasileiro em 1630, milhares de escravos aproveitaram para fugir para os quilombos, não ficando nem do lado holandês nem luso-brasileiro, isso explica o vertiginoso crescimento do quilombo de Palmares nessa época. Como resposta a essa ameaça de classe, holandeses e os senhores de escravos resolveram firmar um acordo pondo fim à guerra que já durava sete anos.
                 Poderíamos citar dezenas de casos, mas para estreitar conversa, basta lembrar que se Brasil não se fragmentou em diversos países, tal como aconteceu com as colônias espanholas, foi pela necessidade que tinha os senhores de escravos em reprimir as revoltas escravas que acontecia de norte a sul do país. Não é atoa que o Brasil tem hoje uma das burguesias mais coesas do mundo, herdeiros diretos da ética, da moral e da solidariedade existente entre infame classe senhorial do escravismo colonial.  É isso que está em jogo não só em São Luís, mas em todo o Brasil, a construção da solidariedade da nossa classe, pautada em uma moral e uma ética completamente diferente dos valores éticos e moral dos patrões. Nós, trabalhadores, somos a única classe produtiva do mundo, a burguesia é parasitária, classe sem sangue que suga nosso sangue. Quando a mídia insinua que os patrões são necessários por que geram emprego, nós dizemos NÃO! É a busca incessante do lucro que produz desempregos, miseráveis, famintos e criminosos! Nós não precisamos dos patrões, assim como os negros e os índios não precisavam dos senhores de escravos no Brasil colonial. Sem patrões a economia se dinamiza e a vida social se enobrece. Basta comparar a vida social e econômica dos quilombos com as das senzalas.
              Na ética bolchevique pós 1917 os indivíduos que fossem eleitos nos conselhos populares e que não estivesse desempenhando suas funções a contento poderiam ser removidos do cargo a qualquer momento. Os trabalhadores não precisavam esperar quatro anos para se livrar de um tribuno desagradável. Infelizmente, a praga stalinista contaminou-se pelos valores éticos e morais da burguesia decadente. No mundo capitalista o infame parlamento ataca cotidianamente o povo e não são punidos, cassados, presos, mas os trabalhadores que lutam por seus direitos são demitidos e presos, como aconteceu recentemente com o Cabo Roberto Campos que liderou a greve de policiais militares no Maranhão no início desse ano. A ética e a moral que a burguesia pratica para se firmar enquanto classe é deplorável, por que ela enquanto classe social é igualmente deplorável.
             Justamente por esse motivo que a solidariedade de nossa classe não pode ser costura tendo como horizonte as práticas das centrais sindicais como a CUT, CGT e CTB que buscam o tempo todo conciliar interesses de classes, tal como aconteceu no primeiro de maio em que dividiam o mesmo palanque com os patrões que atacam contidamente os trabalhadores no chão das fábricas, das escolas ou das empresas de transporte coletivo. Nós da CSP Conlutas não nos misturamos com os patrões, por isso queremos aqui firmar nosso compromisso de está lado a lado com os trabalhadores Rodoviários de São Luís até o fim dessa batalha. Da mesma forma que conclamamos todos os trabalhadores, desempregados e a juventude de nossa cidade a cerrar fileiras nessa luta que é uma luta do conjunto de nossa classe.


 Por Hertz Dias: Professor de História e militante da CSP Conlutas do Maranhão e do Quilombo Urbano.


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